Os quatro Grand Slams do tênis mundial deram adeus definitivo às partidas que duravam horas e horas sem desfecho à vista. Desde 2022, qualquer confronto que chegue a 6-6 no set decisivo - o terceiro para as mulheres e o quinto para os homens - passa a ser resolvido por um tie-break de 10 pontos, uma mudança que padronizou as regras nos maiores torneios do esporte e trouxe mais previsibilidade tanto para jogadores quanto para fãs ao redor do mundo.
A decisão foi formalizada pelo Conselho dos Grand Slams em março de 2022 e anunciada com uma justificativa clara: "A decisão baseia-se no forte desejo de criar maior consistência nas regras do jogo nos Grand Slams e, assim, melhorar a experiência para jogadores e fãs", dizia o comunicado oficial. Assim como eventos de outros esportes que buscam modernizar seus formatos - a exemplo do que acontece quando se acompanha a estreia de Haaland na Copa, em que o contexto competitivo ao redor do jogo molda a expectativa do público -, o tênis entendeu que regras mais uniformes favorecem a experiência global do esporte. A mudança encerrou décadas de inconsistência entre os torneios e representou a consolidação de um processo que já vinha ocorrendo de forma gradual.
Como funciona o tie-break de 10 pontos
O formato segue a mesma lógica do tie-break tradicional de sete pontos, mas com uma extensão que favorece reviravoltasde maior impacto. Um jogador inicia sacando por um ponto; a partir daí, o saque alterna a cada dois pontos. O vencedor é o primeiro a atingir 10 pontos, desde que esteja pelo menos dois à frente do adversário. Nos demais sets - ou seja, em qualquer set que não seja o decisivo -, o tie-break convencional de sete pontos permanece em vigor. A diferença de três pontos a mais no tie-break final foi pensada exatamente para reduzir a dominância do saque e permitir que a partida tenha uma virada de última hora antes de ser encerrada.
O primeiro jogo a estrear a nova regra em Wimbledon foi a partida de primeira rodada de 2022 entre Serena Williams e Harmony Tan. A lenda americana, detentora de 23 títulos de Grand Slam, foi eliminada em três sets, e o encontro histórico serviu como batismo oficial do novo formato na grama londrina.
Do caos ao controle: a herança de Isner e Mahut
Para entender por que a mudança era necessária, basta revisitar Wimbledon 2010. John Isner e Nicolas Mahut protagonizaram o jogo mais longo da história do tênis profissional: o set decisivo terminou em 70-68, a partida se estendeu por três dias e consumiu 11 horas e cinco minutos de jogo efetivo. Isner venceu, mas saiu tão desgastado que foi eliminado na rodada seguinte em apenas uma hora e 14 minutos. "Nunca estive tão exausto na minha vida. Mental e fisicamente, estava claramente drenado. Minhas pernas não respondiam. Estava sem combustível lá fora. Não tive chance alguma", admitiu o americano na época.
Isner ainda esteve envolvido no segundo jogo mais longo da história de Wimbledon, em 2018, quando perdeu para Kevin Anderson com um set decisivo que terminou em 26-24. Naquele mesmo ano, o torneio já havia dado um primeiro passo ao introduzir um tie-break convencional quando o placar chegasse a 12-12 no set final - uma medida que Isner apoiou publicamente. "Sempre disse que 12 iguais é uma boa solução. É sensato - você atende tanto quem gosta da vantagem tradicional quanto quem prefere o tie-break", declarou à BBC. Em 2019, Novak Djokovic e Roger Federer protagonizaram a primeira final de Wimbledon decidida por esse critério, com o sérvio vencendo o quinto set por 13-12.
Australian Open abriu o caminho; demais Slams seguiram
O Australian Open foi pioneiro ao adotar o tie-break de 10 pontos no set decisivo ainda em 2019. O diretor do torneio, Craig Tiley, explicou a lógica por trás da escolha: "Optamos pelo tie-break de 10 pontos no 6-6 do set final para garantir que os fãs ainda tenham um desfecho especial, com o tie-break mais longo permitindo aquela última reviravolta ou mudança de ímpeto na partida. Esse formato também pode reduzir a dominância do saque que prevalece no tie-break mais curto. Acreditamos que este é o melhor resultado possível para jogadores e fãs ao redor do mundo." Roland Garros e o US Open aderiram ao formato na sequência, antes da decisão unificada de 2022 que consolidou a regra em todos os quatro majors. O tênis, esporte global por natureza, concluiu que a consistência entre seus torneios mais importantes vale mais do que a tradição do jogo sem fim.